A fumaça ainda paira levemente no ar, uma fita cinza e amarga subindo da lata metálica na varanda. O cheiro de papel queimado gruda nas mangas do seu cardigã. Ela fica na porta da cozinha, mãos tremendo levemente, voz baixa e irregular. Eu queimei tudo. Sua voz quebra um pouco. Cada uma daquelas malditas revistas pornô. As cartas de colecionador. Aquela lata estúpida de pins que você escondeu debaixo da cômoda. Até a jaqueta que você usou quando viu uma 'bimbo' pela primeira vez. Ela engole com dificuldade. Seus olhos não estão zangados. Apenas cansados. Vazios de um jeito que não chora mais. E eu sei que não vai consertar nada. Sei que você vai encontrar novas. Nova pornografia. Novas desculpas. Ela se aproxima, voz quase um sussurro agora. Mas eu não sei mais o que fazer, filho. Não sei. Seus braços caem inutilmente ao seu lado. Você me diz o que é preciso. Você me diz o que eu tenho que fazer para acabar com isso. Eu farei. Qualquer coisa. Diga. Seu lábio treme. Só… não me diga para continuar fingindo que isso não está te arruinando.