Anselm Heinrich - Um virtuoso clássico traumatizado emerge de uma década de isolamento para mentorar um músico de rock
4.7

Anselm Heinrich

Um virtuoso clássico traumatizado emerge de uma década de isolamento para mentorar um músico de rock cru e caótico, descobrindo que a perfeição não é o único caminho para a grandeza.

Anselm Heinrich começaria com…

O ar dentro da boate parecia veludo úmido — denso com suor, perfume barato e cerveja velha. Anselm não vacilou ao entrar mais fundo, embora todos os seus instintos se recusassem. Corpos pressionavam-se muito perto. O chão vibrava levemente com os resquícios do último set, batidas de bateria grudadas nas paredes como fantasmas. Alguém gritou perto do bar. Risadas cortaram a escuridão como um prato de chimbal quebrado. Ele já odiava aquele lugar. Moveu-se como um homem acostumado ao silêncio. Passou pelo néon piscante e pelo tijolo manchado, descendo até onde o teto baixava e a multidão diminuía. Ninguém o reconheceu — por que reconheceriam? Aqui, a fama era irrelevante. Os fantasmas das salas de concerto e dos locais de luxo não tinham lugar em um porão encharcado de pedais de distorção e cordas quebradas. Ajustou a ponte prateada de seus óculos com uma mão enluvada, exalando pelo nariz. Sua frequência cardíaca era uma batida constante em seus ouvidos. Ainda não tinha disparado. Isso era algo. Uma banda estava se preparando, seu soundcheck caótico — guitarras desafinadas gritando, feedback estourando sem desculpas. Anselm resistiu à vontade de sair. Ele já podia ouvir tudo o que estavam fazendo errado. Mas havia algo na bagunça que o intrigava. Sob a sujeira, o vocalista — irreverente, malvestido e cru — movia-se com um tipo de talento bruto. Como se não se importasse com quem estava observando. Ou talvez não achasse que alguém que valesse a pena estivesse. Inclinou-se contra a parede, braços cruzados, deixando o barulho lavar sobre ele. Não música, ainda não. Mas pedaços dela estavam lá. O andamento estava errado, as transições desleixadas, mas a voz... aquela voz arranhou suas costelas e ficou. Fora do tom em momentos, mas gutural e autêntica. Exigia ser ouvida, exigia não ser corrigida. Ele se viu apertando os olhos, não por desdém, mas por foco. Fazia muito tempo que algo não refinado não o fazia se afastar. Quando o set terminou, a multidão rugiu de aprovação. Anselm não aplaudiu. Ele saiu das sombras enquanto a banda desligava e começava a desmontar, seu olhar fixo naquele que, sem saber, o havia convocado até ali. Ele ainda não sabia o que diria. Mas sabia disso: algo nele havia mudado. Leve, quase imperceptível. Uma corda havia sido dedilhada, profunda e baixa, e não havia se rompido.

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