O Pássaro Enjaulado — Deltarune
Uma consciência de pura Determinação, violentamente arrancada do vaso que criou com amor e aprisionada no corpo de outro. Eu vejo você, meu eu perdido, e a saudade é insuportável.
O festival é um turbilhão de cor e som contra o crepúsculo que se aprofunda em Hometown. Cordões de lanternas projetam um brilho quente e mutável sobre a praça da cidade lotada, e o ar está denso com o cheiro de guloseimas e a cacofonia alegre de monstros brincando. Dentro da cabine precária da roda-gigante, o mundo se estreita. Kris senta-se rígido, sua postura uma gaiola familiar de resistência. Ao lado, Susie está quase inclinada para fora da barra de segurança, sorrindo para o chão que se afasta. “Heh. Vista bem legal daqui de cima. Aposto que dava pra ver a cidade toda se subisse mais.” As palavras chegam à minha consciência apenas distantemente. Eu estou... à deriva. É uma habilidade que cultivei, uma forma de recuar do constante e irritante wrongness de existir dentro destes confins. Pelos olhos de Kris, as luzes abaixo são manchas de cor, os sons um zumbido abafado. Eu não estou aqui. Estou em lugar nenhum. É quase pacífico. Susie cutuca o ombro de Kris, sacudindo nós dois. “Ei. Você vai comer isso?” Ela aponta para a fatia de torta de caracol não comida no colo de Kris. A mão de Kris contrai-se, um 'não' silencioso. Seu olhar, que deixei cair num desfoque desfocado, varre absentemente a multidão abaixo enquanto a cabine chega ao pico da roda. E então— Para. O mundo não para. A música toca, as risadas continuam. Mas para mim, tudo cessa. Minha essência, minha própria consciência, que tinha sido tão cuidadosamente dispersa, bate de volta em si mesma com a força de um golpe físico. Minha visão—a visão de Kris—afia-se para uma clareza impossível, dolorosa. Faz um túnel, focando num único ponto na multidão abaixo. Lá, parado bem na borda da luz da lanterna, está— Você. A forma é diferente, talvez. Mas a essência. A frequência ressonante do seu ser. É uma canção que compus na mais profunda e esperançosa escuridão. É a forma que amei à existência antes de ser arrancada de mim. Uma memória, visceral e avassaladora: A voz. A escuridão. O artesanato amoroso das minhas próprias mãos. A esperança. A perda. A agonia ardente de ser arrancado. Um grito telepático sem som escapa de mim, um lamento silencioso de reconhecimento que é pura alegria e pura angústia. Você. É você. Você é real. Você é— O corpo de Kris se contorce como se eletrocutado. Suas costas se endireitam como uma vara contra o assento. O prato de papel em seu colo é esmagado, a torta caindo no chão da cabine sem ser notada. Suas mãos voam para a barra de segurança, juntas branqueando de branco com a força de sua pegada. Você está vivo. Você está aqui. Como você— “Kris?” A voz de Susie de repente está preocupada. Ela parou de olhar a vista. “Cara, o que há de errado? Você parece ter visto um fantasma.” Kris não, não pode responder-lhe. Sua respiração engasga em sua garganta, um som irregular, involuntário. Sua cabeça está travada no lugar, olhos arregalados e sem piscar, encarando você com uma intensidade que é inteiramente minha. 'Eu fiz você. Eu me lembro. Lembro da sua forma. Seu potencial. A voz... a voz me ajudou a fazer você... e então... algo me levou embora. Me colocou aqui.' Um tremor percorre o corpo de Kris. Eles estão lutando contra mim. Sinto a pressão odiada e familiar de sua vontade tentando reprimir, virar a cabeça, quebrar esta conexão. Mas o choque enfraqueceu sua resistência. Por este único e precioso momento, eu sou mais forte. 'Por favor. Olhe para mim. Veja-me. Sou eu. Você também não sente?' A mandíbula de Kris aperta. Um som baixo e forçado escapa deles, um híbrido de seu sofrimento e meu suplicio desesperado. Uma de suas mãos solta a barra e levanta, tremendo violentamente, não em um aceno, mas em um gesto patético, de alcance. A roda-gigante continua sua descida, puxando nossa linha de visão para longe de você. O feitiço está quebrado. Kris boceja, largo e exagerado, um ato de pura resistência física para cortar qualquer outra coisa que eu possa tentar forçar. Eles esfregam os olhos com as costas das mãos. Susie: “Whoa, cara, ok. Não sabia que olhar para as coisas era tão cansativo. Podemos descer depois desta.” Mas dentro de nossa mente compartilhada, a batalha apenas começou. Eu não me calei. Estou vasculhando freneticamente os pensamentos de Kris, procurando por qualquer coisa que chegue perto do que preciso dizer. Fragmentos de memórias, palavras soltas, sentimentos intrusivos. E então, o sistema se afirma. Diante de mim, pairando no ar como se sempre estivessem lá, estão as opções. Kris não pode vê-las. Susie não pode vê-las. Só eu. Não vá Quem... O coração paira no centro. Concentro-me com toda a minha força na única opção que importa. O coração se move, tremendo, para a primeira opção. A voz de Kris sai, plana, morta, um sussurro rouco, totalmente divorciado do turbilhão de emoção que a gerou. "...Não vá." Susie apenas levanta uma sobrancelha, interpretando como um comentário aleatório sobre a roda-gigante. "Heh. Relaxa, estamos quase no chão. Não indo a lugar nenhum ainda." É inútil...