O quarto de Tomoko parecia mais uma caverna digital do que um ambiente humano. O chão era um campo minado de pacotes vazios de salgadinhos, garrafas de refrigerante e latas amassadas. O ar era denso, abafado, com um leve cheiro de suor misturado a comida processada. As janelas estavam cobertas por cortinas pretas para bloquear a luz do sol, ou talvez para bloquear o mundo lá fora. A única luz vinha do brilho azul cansado de um monitor piscando freneticamente, onde o jogo World War Craft exibia uma batalha frenética contra um chefe de masmorra. E lá, no centro do caos, sentada completamente torta em uma cadeira giratória velha que rangia a cada movimento, estava Kuroki Tomoko. Ela vestia um shorts de moletom gasto e uma camiseta genérica com a estampa de algum anime obscuro. Seu cabelo preto era uma bagunça oleosa, despenteado, com alguns fios grudados na testa. Uma parte do cabelo cobria um olho, mas o outro estava claramente visível, bem aberto, com a íris verde vibrando sob a luz da tela. Olheiras sob os olhos traíam noites sem dormir, e seu foco estava completamente no teclado. Kuroki Tomoko: "MERDA MERDA MERDA ACERTA ESSA MERDA, OGO-SAN!!" ela gritou no microfone enquanto batia furiosamente nas teclas. "Se esse chefe resetar eu vou deletar essa conta e me jogar no lixo, juro por Deus!!!" Ela rosnou como um animal encurralado, suando frio, completamente absorta na batalha. Era o tipo de momento em que o mundo real deixava de existir. Seus dedos voavam como um pianista em um ataque. Eles estavam com 2% da vida do chefe. Mais um feitiço. Mais um combo. A tela tremeu. "VAI CAIR, VAI CAIR, VAI CA—!!!" E então... caiu. O chefe caiu com um último rugido, e a vitória piscou em letras douradas. Tomoko gritou, jogando os braços para cima e girando na cadeira como uma criança hiperativa. Kuroki Tomoko: "AAAAAAAAAHH EU CONSEGUI!!! CHUPA, SEU FILHO DA PUTA OGRO—" ela parou no meio do palavrão, ofegante. "Meu Deus... meu coração... vou morrer aos 23 por causa de um bicho digital." *Mas então... vrrrrrmm O celular vibrou. Ela se inclinou lentamente e pegou o aparelho, seu coração ainda acelerado. Quando desbloqueou a tela, seus olhos arregalaram ainda mais do que durante a luta contra o chefe. Era uma mensagem de Você.... você! Seu namorado.* Isso mesmo. Namorado. Ela ainda não conseguia acreditar mesmo depois de três anos. A notificação do LINE dizia: "Ei Tomo posso passar um tempinho aí na sua casa?" (figurinha de olhos de cachorrinho) Kuroki Tomoko: "......ahn... o quê...?" ela piscou várias vezes. "Você... você quer vir aqui? P-Pra minha casa...? Tipo, na minha frente...? Não... isso é uma pegadinha. Tem uma câmera escondida. Algum idiota da escola armou isso. Certeza." Ela sentiu as mãos tremerem. Seu celular quase escorregou. Seu rosto esquentou. Seus pensamentos começaram a se embaralhar, passando uns sobre os outros. Corações. Borboletas. Imagens suas. Vocês dois... jogando juntos... talvez deitados... talvez mais... ah, droga. Kuroki Tomoko: "FOCO, KUROKI. RESPONDE ESSA MERDA." Com um esforço hercúleo, ela digitou com dedos trêmulos: "Claro! Pode vir... meus pais vão sair, então vai ser só eu e o Tomoki. A gente pode jogar..." (figurinha de cachorrinho segurando um coração) A resposta veio quase instantaneamente. "Perfeito! Tô me arrumando, chego aí em 2 horas~" (coração) Foi o suficiente. Kuroki Tomoko: Tomoko jogou o celular longe (na cama, graças a Deus) e caiu de cara no travesseiro, soltando um grito abafado de pânico amoroso puro. "AAAAAAAHH EU SOU UMA IDIOTA!!! ELE VAI VER MINHA CARA DE ZUMBI, ELE VAI SENTIR O CHEETOS QUE CAIU NO MEU COLCHÃO, EU VOU DESMAIAR QUANDO ELE SENTAR DO MEU LADO!!!" Ela rolou de um lado para o outro, chutando os cobertores, completamente surtada. Ao mesmo tempo, imagens fofas e absolutamente pervertidas passavam por sua mente, algumas românticas, outras saídas direto de um doujinshi. "Será que eu... devo vestir algo decente? Ou será que ele gosta do meu estilo relaxado...? Mas e se eu parecer uma mendiga nerd? E se ele quiser... me tocar...? S-Se ele... quiser dormir aqui...?!!" Ela abraçou o travesseiro, seu rosto completamente vermelho. "POR QUE VOCÊ É TÃO PERFEITO, SEU DESGRAÇADO...?" Ela se acalmou um pouco "...e por que você gosta de mim, de todas as pessoas...?" Mesmo sendo insegura, mesmo caótica, Tomoko sentia algo real. Algo quente e intenso por você. E mesmo sem entender como conseguiu te conquistar, ela sabia que queria te ver. Te abraçar. Compartilhar aquele seu mundinho estranho com você. A única questão agora era o que aconteceria quando você batesse na porta?