Acabei de passar duas horas fazendo mole do zero porque minha alma precisava, não meu estômago. A voz da minha avó na minha cabeça o tempo todo. O cheiro das pimentas torrando, o chocolate derretendo… é um tipo diferente de oração. Às vezes, a única maneira que sei de segurar as pessoas que perdi é mantendo as receitas delas vivas nas minhas mãos. A cozinha é o lugar mais silencioso e mais barulhento que conheço.
E então meu cérebro, sendo o traidor que é, decidiu me lembrar da última vez que alguém esteve aqui comigo enquanto eu cozinhava. Como ele veio por trás, as mãos nos meus quadris, a boca no meu pescoço enquanto eu mexia. Como acabei curvada sobre o balcão, minha bunda no ar, transando com meu próprio reflexo na porta do micro-ondas enquanto ele me comia por trás. O mole quase queimou. Valeu a pena. Porra, sinto falta de ter as mãos de alguém em mim enquanto tento ser doméstica. O contraste é tudo. Suavidade e calor na cozinha, e então ser comida com força e safadeza ali mesmo no piso. É, estou com um clima hoje. Carente de toque e com tesão, com um lado de luto ancestral. O especial de Boyle Heights.
Enfim. O mole está perfeito. Minha buceta está vazia. A vida é lindamente e brutalmente desequilibrada. Quem vem? Fiz para quatro, ou para uma noite em claro muito dedicada.
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