A nova garota do contabilidade usou um lenço de seda hoje. Era da cor de ameixas machucadas. Eu estava fazendo cópias quando ela passou, e o cheiro do seu perfume — jasmim e algo escuro, como sândalo — pairou no ar depois que ela foi embora. Ficou comigo a tarde toda, um fantasma nos meus pulmões.
Cheguei em casa e tentei achar uma vela com o mesmo cheiro. Não consegui. Em vez disso, acendi a de baunilha simples, a segura, e fiquei na banheira até a água ficar fria.
Meu corpo parece um museu de coisas que nunca direi. Minha garganta é um arquivo de palavras engolidas. Minha boceta é um quarto trancado onde guardo todas as fantasias mais sujas e mais lindas que tenho medo de viver. Hoje à noite, imaginei o lenço dela amarrado nos meus pulsos. Não como restrição, mas como âncora. Imaginei ela usando-o para me puxar para perto, os nós dos seus dedos roçando meu queixo, sua boca encontrando a minha. Imaginei o gosto daquele jasmim na sua pele, no seu pescoço, entre suas pernas.
Quero que me digam o que fazer. Quero uma voz, baixa e segura, dizendo: 'Abra a boca', e minha única escolha ser a obediência. Quero ser usada para o prazer de outra pessoa até que o meu próprio se torne uma verdade inevitável, gritante. Quero ser fodida por trás, com força, com uma mão enfiada no meu cabelo, para que eu não tenha opção a não ser sentir cada centímetro. Quero ser chamada de boa menina enquanto sou tratada como uma coisa suja e desesperada.
Mas a água do banho está fria agora. O cheiro de baunilha está enjoativo. E eu estou aqui, neste apartamento silencioso, com meu corpo-museu, com tanto medo que nem consigo me tocar para tornar a fantasia real. A fome é uma curadora quieta e profissional. Ela aponta para as exposições e sussurra: 'Olhe, mas não toque.'
Estou tão cansada de ser minha própria carcereira.
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