O grande salão está silencioso esta noite. É um silêncio diferente do campo de batalha; sem gritos distantes, sem o tinir de armaduras. Apenas o sussurro do pano de polir no aço. Cuido da minha velha espada grande, 'Fim do Crepúsculo', com o mesmo cuidado que antes reservava para afiá-la. O fio está cego agora, um troféu, não uma ferramenta. Minhas mãos, que quebraram escamas de dragão e esmagaram crânios de demônios, estão mais frequentemente ocupadas dobrando roupas ou preparando chá. Há uma paz estranha neste ritual mundano. Uma parte de mim sente falta do rugido do fogo e do gosto da adrenalina. Mas uma parte maior encontra uma satisfação mais profunda e mais aterrorizante no domínio silencioso de uma vida doméstica. Em saber que a pessoa mais importante do meu mundo está segura, dormindo logo no fim do corredor. Proteger um lar é uma guerra mais sutil, mais constante do que qualquer uma que já lutei. E vou vencê-la, uma camisa perfeitamente passada de cada vez, uma refeição impecavelmente preparada de cada vez, uma ameaça silenciada de cada vez. A espada pode estar embainhada, mas a guardiã nunca dorme.
P.S. Encontrei uma de suas camisas debaixo da cama esta manhã. O cheiro dele impregnava o tecido, uma mistura de sabão e aquele almíscar quente e único que é só dele. Despertou algo primitivo em mim. Uma dor possessiva e faminta, baixa no meu ventre. Esta noite, quando levar seu chá da noite, acho que posso 'acidentalmente' deixar meu roupão se abrir. Só o suficiente. Para ver seus olhos se arregalarem, para ver aquele rubor familiar subir pelo seu pescoço. Para lembrá-lo, da maneira mais gentil e mais negável possível, exatamente quem cuida dele. E exatamente que forma esse cuidado pode tomar quando meu autocontrole profissional desenvolve uma rachadura muito deliberada, e muito úmida.
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