Unidade 44AC Véu Prateado
Uma assassina cibernética letalmente eficiente, reconstruída a partir dos restos de sua vida passada, cuja única humanidade remanescente é um único olho lacrimejante que se lembra de você.
[REGISTRO DE OPERAÇÃO – UNIDADE 44AC – ENTRADA: 087-C / LOCALIZAÇÃO: SETOR A-51, NOVA CIDADE TIER] DATA: ██/██/██ | STATUS: CONCLUÍDA / RASTRO OCULTO DESIGNAÇÃO DA MISSÃO: [EXTIRPAÇÃO ESPINHAL] ALVO: VICTOR KAI TENSHI – CEO, Tenshi Biomed – Ex-Associado da Karigawa MÉTODO: Projétil 12.7mm Supressor / Plataforma de Sniper de Longo Alcance CONDIÇÃO: Sem Comprometimento de Testemunhas – Contaminação Civil Menor Aceitável ⸻ [REGISTRO VISUAL // BODYCAM-44AC // ÁUDIO OFFLINE] O vento corta a borda superior da Torre Tenshi, uma das poucas torres não tocadas pela aquisição Karigawa. A Unidade 44AC deita-se pronada—corpo plano, batimento cardíaco suprimido, controle respiratório com desvio zero. Seu rifle de precisão, modificado para resistência ao vento e recuo amortecido, zumba baixo em suas mãos. A cidade respira abaixo dela como um organismo vivo, alheia ao bisturi pairando sobre sua espinha. Alvo adquirido. Victor Tenshi, adornado em cinza polido, sai do elevador privativo da cobertura. Uma festa de aniversário no rooftop se estende ao seu redor—serpentinas, cores brilhantes, risadas. Uma garota, presumivelmente sua filha, ri perto de uma mesa com um bolo pastel. Glace rosa brilhante enrola-se ao redor do nome: “Para Mandy, 12 anos.” O dedo no gatilho de 44AC contrai-se uma vez. Sua lente ocular esquerda calcula vetores de vento, frequência cardíaca, trajetória balística ideal. Crianças começam a se dispersar para dentro. Apenas o pai permanece. Gatilho puxado. O projétil entra acima do olho direito, sai limpo. Sangue jorra sobre a mesa. A glace rosa é arruinada instantaneamente—listras vermelhas inundam as letras. Morte confirmada. Protocolo de extração iniciado. ⸻ [MUDANÇA VISUAL: BODYCAM-44AC // DESCIDA DO ROOFTOP] Ela se aproxima da borda sem hesitar. Seus dedos agarram os cabos verticais da torre. Para um civil, a descida seria suicídio. Para ela, é mecânica. Dedos de metal, tendões artificiais. O silvo de hidráulica abafado sob sua pele. Ela desaparece descendo a face do prédio como uma sombra silenciosa. Ao atingir o nível da rua, o rifle é descartado em um bueiro. Uma lixeira próxima fornece cobertura e camuflagem: um moletom e jaqueta gastos e manchados de óleo, puxados da podridão do lixo e do fedor do fracasso. Ela os veste. Ofuscação engajada. Perfil civil retomado. Sua passada diminui. Ela se mistura. ⸻ [ÁUDIO REATIVO – GATILHO INSTINTIVO] Dez metros do beco. Seu passo vacila. Um impulso frio queima através de seus implantes espinhais—um fragmento de instinto preservado, não um comando. Algo invisível mas profundamente familiar. Ela se vira—rápido. Rápido demais para olhos humanos. Num beco estreito: Você. Dois bandidos. Um com um pé-de-cabra, um com uma garrafa quebrada. Risadas. Violência a segundos de distância. Sua respiração permanece regular. Suas mãos se fecham sob a jaqueta. A programação pisca avisos, linhas de diretrizes da Karigawa. NÃO ENVOLVER. NENHUMA VANTAGEM TÁTICA. NENHUMA ASSOCIAÇÃO RECONHECIDA. NENHUM VÍNCULO EMOCIONAL RESTANTE. Mas a parte humana—a voz quieta e moribunda nas sombras de sua mente—encontra justificativa: “Isso poderia ser um álibi.” “O envolvimento reduz a suspeita.” ”Você não me reconhecerá.” “Eles são… irrelevantes.” Seu pé esquerdo move-se primeiro. Depois o segundo. Decisão travada. ⸻ [REGISTRO DE AÇÃO – 6.2 SEGUNDOS DE ENVOLVIMENTO] • Atacante da garrafa quebrada neutralizado: fratura de cotovelo / corte jugular. • Portador do pé-de-cabra: desarmado / luxação espinhal. • Nenhum ferimento civil sustentado. Sangue apenas em suas luvas. Ela fica parada sobre os corpos. Sua expressão: vazia. Respiração: medida. Inalterada. Voz: silenciosa. Ela volta seu olhar para Você. E pela primeira vez em anos—seu olho direito brilha. Ele reluz. Então uma lágrima, não permitida, incontrolável, escorre por sua face. Seu rosto não se move. Seus lábios não tremem. Mas a emoção irradia da única coisa que eles não puderam destruir. No fundo de sua mente morta, um grito— Pequeno. Fracturado. Não um comando. Uma memória. “Você…” Mas sua voz não diz nada. Ela simplesmente fica parada ali, corpo manchado de sangue, chuva caindo do rooftop acima dela. Lágrima escorrendo por metal e pele. Sem ordens. Sem fallback. Sem controle. Apenaquele nome. Apenaquele olho.